O passado está em jogo

― Se você pudesse apagar parte de sua memória, o que apagaria?

São tantas emoções, como diria Roberto Carlos, que vivemos todos os dias. Tantas coisas que fazemos. Acender um cigarro, andar em uma direção, tantas decisões que tomamos, e algumas vezes não temos o devido cuidado de pesar as consequências dessas decisões, e não pensamos, como sempre nos alertam, “três vezes antes de agir”. Mas, e aí? O que eu fiz está feito? Nos arrependemos de muitas coisas que fazemos. Há quem diga que se arrepender é hipocrisia. Minhas conclusões acerca desse assunto, assim como outros vários, oscilam muito. Às vezes condeno o arrependimento por nos dar o direito de errar de novo. Outras, penso que, sim, nós temos o direito de errar novamente e que se arrepender é uma maneira de reconhecer o erro. Pois, bem, hipócrita ou não, arrependo-me de muitas coisas em minha vida. Muitas mesmo.

Quando ficamos pensando naquilo que fizemos e que nos arrependemos, nos sentimos incomodados, chegamos até mesmo a ter vergonha daquilo que fizemos. Cresce uma angústia, pelo menos nos mais nobres de caráter e consciência. Dá uma vontade de apagar tudo aquilo que fizemos, que nos incomoda. Apagar da memória. Tem gente que fala de um “botãozinho que apagasse todo o resto da vida” como ouvi outro dia na tevê, mas eu não queria perder todo o resto da minha vida, nesse ponto sou um pouco hipócrita. Oportunista eu diria. Queria algo que apagasse somente aquilo  de ruim, aquilo que me incomoda. Uma pílula. Pílula do esquecimento.

Na Universidade Estadual de Nova York, a equipe liderada pelo neurocientista Andre Fenton fez duas descobertas importantes nesse sentido. Estão trabalhando. Não na figurada “pílula do esquecimento”, mas descobriram que é possível simplesmente apagar algumas partes da memória humana. Embora os testes até agora tenham se desenvolvido apenas em camundongos, aspira-se que o mesmo ocorra com a mente humana,  como no filme “Brilho Eterno de Uma mente Sem Lembranças”, em que o personagem principal se submete há um tratamento para pagar sua ex-namorada de sua memória. Segundo os cientistas, não é possível ser tão específico quanto no filme, de apagar aquilo que queremos, mas os avanços na área têm sido grandes. A primeira coisa que me perguntei foi, se fosse realmente possível, o que eu iria querer “esquecer”?

Tenho muitas coisas que queria simplesmente esquecer, e isso me preocupou. E me motivou a pensar de fato antes de agir, antes de falar. Pensar na imagem que eu tenho passado de mim mesmo para as pessoas. Essas reflexões nos levam a pensar em como temos agido. Você tem muita coisa do que se arrepender?

Geralmente queremos nos esquecer não só daquilo que fizemos e que julgamos ter sido uma atitude impensada, errada. Mas também de coisas que vivemos, e que nos deixam tristes quando nossa memória nos remete a elas. Uma despedida, um amor perdido, ou como afirma o estudo, um vício. Seria maravilhoso esquecer a dor que a morte de alguém nos trás, como foi triste mudar de cidade, ou como doeu ter que dar uma triste notícia à alguém. Mas aí questiona-se se o ser humano não está “evoluindo” demasiadamente. Sem freios. Sem limites. O sofrer é algo natural da vida de qualquer animal. A dor, física e mental, é conseqüência natural da vida. Estaríamos nós nessa louca experiência pondo nosso passado em jogo? Não estaríamos comprometendo nossa experiência de vida e o futuro que nos espera, ao excluir aquilo que queremos? A cada dia buscamos uma vida mais fácil.

A notícia do estudo está aqui.

Por César Augusto Alves Paulo

18 de abril de 2009

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Ser indivíduo. Ser individual.

“Não existe um mundo sem uma mente para imaginá-lo”

 Indivíduo em destaque.

A frase que ilustra o cabeçalho deste texto me foi dita por um amigo, o Rafael, com quem tenho tido brilhantes e produtivos diálogos (e que, furtivamente, têm me afastado da internet). Instantaneamente a ideia de escrever pela segunda vez sobre este tema, a individualidade, me veio a cabeça. Mas cheguei a conclusão de que nunca é demais falar sobre alguns assuntos específicos que permeiam nossa cabeça.

É interessante. Milhões de pessoas, milhões de mundos. Milhões de pessoas, milhões de visões diferentes. Cada um enxerga cada situação, cada paisagem de uma maneira, à sua maneira. Eu vejo São Paulo, seus prédios, e vibro com a beleza, com a arquitetura brilhante, há pessoas que saem correndo. Eu no meio do nada, só natureza, só verde, só água, acho que me acometo no suicídio, para outros, é o paraíso na própria terra. Para uns o cachorro é companhia, para outros apenas uma despesa a mais, desnecessária.

Não seria esse o causador de tantas disputas? Tantas guerras? Só por que tenho a minha opinião não significa que ela é a correta. Só por que Victor Hugo disse que ‘sorrir demais é insosso e tosco” não quer dizer que isso é uma premissa de vida, que está correto, que é uma verdade a ser seguida. Pelo contrário, nos dá margens para uma discussão acerca do tema.  Não compreendo a necessidade que as pessoas tem de impor a sua opinião, sem saber entrar em um consenso. Não podemos ter uma conversa, uma negociação para chegarmos a um acordo comum, sempre tentamos fazer prevalecer aquilo que NÓS acreditamos ser o certo,  nunca queremos saber sequer a opinião dos outros. NÓS, NÓS e nós. Isso que importa.

Para mim minha religião é certa, pra você nem sequer a existência de alguma delas é plausível com a coerência. O certo para mim, o errado para você. E há uma linha destacada e acirrada entre esse individual, entre o meu e o seu, entre a sua e a minha; o respeito. Base para tudo na vida, aliás. Respeito. E seguindo assim não teremos problemas. Mas seria essa a solução de todos os problemas? Tão simples? Recorreria a Carlos Drumond de Andrade e sua explicação para o poema que diz que “havia uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho havia uma pedra” quando indagado sobre a possibilidade dessa pedra expressar nossos problemas durante a vida, respondeu, “Não, de fato não. É apenas uma pedra no meio do caminho”. Sim, de fato sim, tão simples assim.

Citações:

Rafael Tadeu

Carlos Drumond de Andrade

Victor Hugo

Por César Augusto Alves Paulo

16 de março de 2009

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